Como romper com um cara sobre o texto

Pessoas com depressão: como vocês conseguem estudar?

2019.05.03 12:36 xingo_pra_caralho Pessoas com depressão: como vocês conseguem estudar?

Sou o tipo de pessoa que nunca teve muita dificuldade durante a escola e tal, mas agora na faculdade eu sei que preciso me dedicar mais, bem mais, para atingir minhas ambições pessoais.
Eu curso direito e, embora minhas notas continuem muito boas (uniesquina), eu sei que estou ficando pra trás. Sou um péssimo estudante cara, leio poucos livros por ano (entre doutrinas, cursos e por lazer) e exercito muito pouco a minha escrita.
Minha depressão é não diagnosticada, nunca fui a um terapeuta ou psiquiatra para ver isso, mas ela é muitíssimo real. Sei lá, não tenho dinheiro e nunca tive coragem de abrir a boca sobre a depressão com meus familiares com melhor condição financeira para me bancarem, sei que isso é errado mas sei lá, essa doença não semeia raciocínio na minha cabeça, mas sim desarmonia. É como se tudo aquilo que eu pensando logicamente diga x, mas ao exteriorizar faço y. É complicado explicar, só quem vive com isso sabe como é.
O ponto é: não consigo me forçar a estudar sendo que minha cabeça tá um caos. Durante o ano acontece sim algumas vezes em que eu me sento para realmente de livre e espontânea vontade pesquisar e ir a fundo em tópicos que me interessam. Mas de resto, eu meio que leio uma coisinha ou outra e vou bem nas provas e fica por isso mesmo. É doloroso viver a cada dia sabendo que não estou dando o melhor de mim para meu eu-futuro, mas eu não sei como romper esse ciclo de auto-sabotagem fodido.
Vivo com essa merda há quase 7 anos e sinto como se estivesse me afundando cada vez na areia movediça junto com meu futuro.
Perdão pelo texto abarrotado, é difícil para mim colocar todos esses sentimentos em palavras.
submitted by xingo_pra_caralho to brasil [link] [comments]


2018.01.19 19:14 desafiodos7anos A História do Olho.

Numa aula de Teoria da Comunicação de Massa no semestre passado, tive uma breve conversa com o professor Rüdiger a respeito de obras de arte que poderiam ser consideradas “perturbadoras”. Eu mencionei o romance “Viagem ao Fim da Noite” do Céline, os romances do Albert Camus (“O Estrangeiro”, “A Queda” e o ensaio “O Mito de Sísifo”), e também os filmes e textos do Pasolini (nunca vi nenhum, mas li a respeito). O Rüdiger citou o filme “Henry, Retrato de um Assassino”, o “Filosofia na Alcova” do Marquês de Sade e, sobretudo, um livro do qual eu nunca tinha ouvido falar: “A História do Olho”, de um falecido autor francês chamado Georges Bataille. Ele definiu este como o livro “mais terrível” que ele já tinha lido.
Saí à procura do livro. É completamente desconhecido nas livrarias ou sebos de Porto Alegre. Descobri que até mesmo na França e EUA é uma obra difícil de encontrar, um típico livro “maldito”, muito mais citado do que lido. Mas consegui encomendá-lo pela Livraria Cultura através da internet, numa edição portuguesa (“Livros do Brasil” de Lisboa, 1988), por cerca de 20 reais mais frete.
Li o livro, curiosíssimo para saber o que poderia ser tão “terrível” numa obra literária. Bem, não é que a História do Olho seja “terrível”. Mas é sem dúvida perturbadora. O livro narra episódios na vida de um adolescente de 16 anos que, junto com uma amiga chamada Simone, mergulha num caminho aparentemente sem fim de atos obscenos e perversos. Logo na primeira página do livro o narrador conhece Simone. Na segunda página, ela levanta o vestido e, sem calcinha, agacha-se sobre um prato de leite, mergulhando ali a buceta. Vendo o leite escorrer pelas coxas da garota, o narrador “esfrega sua verga, debatendo-se no chão” (traduções portuguesas são um barato…).
Esta já é uma cena com aspecto obsceno maior do que a média encontrada nos livros e filmes por aí. Mas é só o começo da História do Olho. Em cada página seguinte o nível de perversão aumenta, as situações ficam cada vez mais perturbadoras, passando por uma trágica suruba de adolescentes, onde uma menina se enforca dentro de um armário enquanto urina, e culminando no último capítulo com uma indescritível “missa” celebrada pelos protagonistas numa igreja, com a participação não-voluntária de um padre. Outra característica do texto é lidar com símbolos surrealistas. Há muitos elementos recorrentes: o olho, o ovo, os testículos de um touro, o sangue, a urina, o orgasmo (Bataille: “uma doce morte, particularmente ameaçadora para a censura e a burguesia, por seu caráter de ruptura e anarquia”), a morte. Numa cena do livro, os personagens assistem a uma tourada, e no exato momento em que o touro acerta o toureiro na arena, fazendo com que seu olho “esvazie-se para fora da cara”, Simone introduz na vagina um testículo de boi, tendo um orgasmo.
O olho, no mundo “normal”, é um órgão nobre, símbolo da visão, da percepção, da beleza, da razão e da virtude do corpo. O ovo é símbolo da vida, pureza, exatidão, natureza. No livro de Bataille, ambos são instrumentos de perversão, símbolos da obscenidade, do sexo e da irracionalidade do corpo; olhos são arrancados do rosto de um padre e introduzidos na vagina, ovos são enfiados no cu de Simone e ali apertados até se quebrarem. É deste tipo de evento surreal (porém incomodamente realísticos) que a narrativa de “A História do Olho” se compõe.
Mas o que torna tudo isto “perturbador” não é a mera obscenidade dos fatos, e sim a atitude dos personagens diante destes fatos: é como se fossem a coisa mais normal do mundo: não há questionamentos e nem consequencias. O leitor fica tentado a admitir que todas estas coisas são toleráveis e normais, e que portanto o mundo é por natureza sórdido e obsceno, resultando, finalmente, no efeito “perturbador”: a ruptura, no leitor, das noções de normalidade, de moralidade, das idéias positivistas de razão e pureza do corpo.
Este é o segredo íntimo de qualquer obra de arte considerada perturbadora: o de romper com ilusões que nem sabemos existir, chamar a tua atenção pra algumas verdades que inquietam, ou que subvertem a tua visão de mundo usual. Geralmente isto só é possível através da violência, da obscenidade, do humor negro ou da revolta. “A historia do olho” consegue isso através da obscenidade. O “Viagem ao fim da noite”, através da violência. “O Estrangeiro”, através da revolta. Perturbar é, de certa forma, romper com ideologias, ainda que temporariamente. Assim fizeram Céline (“a única verdade do mundo é a morte”), Sade, Pasolini, Henry Miller, Bataille, Buñuel e outros, e conseguiram atingir as pessoas e produzir obras de arte porque tinham idéias poderosas e criatividade estética.
submitted by desafiodos7anos to brasil [link] [comments]